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Entre Órbitas

Curadoria Eder Chiodetto
setembro/ dezembro 2026
Casa Proeza

Entre Órbitas

​

Desde cedo, aprendi a olhar para cima.

Meu pai partiu para o céu quando eu tinha apenas oito anos. Desde então, uma parte minha

seguiu a caminho dele, enquanto a outra aprendeu a ficar.

 

Entre partir e permanecer, construí um universo.

 

O instante antes do pouso.

O instante antes do voo.

 

É desse lugar que nascem as minhas imagens. São aparições, vestígios, oráculos, presságios.

Corpos que se desfazem, vultos que emergem da escuridão, silêncios, forças da natureza,

estrelas, explosões. Formas ainda em gestação, como se estivessem prestes a acontecer.

 

Há um termo japonês, budista, para esse espaço: Nakazora - o intervalo entre o céu e a terra, o

lugar onde os pés não encontram o chão.

Há outro, de origem sânscrita, procedente do Hinduísmo: Akasha, o vazio primordial, a

abertura imensa, que simboliza o Espírito, e que fornece o espaço para que os outro quatro

elementos existam e interajam – a terra, a água, o fogo e o ar.

 

Nesse espaço o cosmos deixa de estar distante. Ele pulsa por dentro. O corpo torna-se

paisagem.

 

Assim minhas imagens permanecem entre a presença e a ausência, a visão e a ilusão, a

matéria e o espírito. Círculos se abrem em elipses. Órbitas se deslocam.

 

Não crio raízes.

Crio passagens.

 

E sigo por elas, entre mundos, procurando não exatamente um lugar ao qual pertencer, mas

esse instante de suspensão em que tudo ainda pode se transformar.

 

Da perda, faço luz.

Do vazio, consciência.

Da queda, voo.

 

Nessa busca pelo meu pai precisei desenhar um lugar para sair de onde me sentia presa. A

fotografia me revelou que procuro uma forma de liberdade, que não dependa de chegar a lugar

algum.

 

Habito no intervalo.

Sou um corpo que insiste em permanecer entre.

Aprendi o idioma do suspenso.

 

Luciana Rique

"Corpos celestes descrevem órbitas que coreografam o cosmos e absorvem a luz, enquanto o tempo, em cadência infinita, se incumbe de esculpir formas e desenhar as existências. A matéria nunca repousa. Mesmo aquilo que aparentemente está inerte abriga movimentos e metamorfoses. É nesse insondável espaço entre o visível e o invisível, a permanência e a volatilidade, que Luciana Rique concebe as obras reunidas em Entre Órbitas, sua terceira mostra individual.

 

Nesse novo projeto, os movimentos estelares, a alquimia, a transformação da matéria e o comportamento da luz iluminam novas paragens e poéticas em sua produção. Tonalidades avermelhadas e elementos cosmológicos emergem em suas imagens, fazendo alusão ao rubedo, etapa culminante da alquimia, na qual espírito e matéria se unificam.

 

O ponto de gravidade da obra de Luciana ganha relevo após sucessivas dissoluções e recomposições que ocorrem no embate entre conceitos e os materiais eleitos para essa travessia em seu ateliê. Ali, a artista coloca suas fotografias, que emulam asteroides e poeiras cósmicas, em contato com matérias dotadas de memória e densidade: chapas de ferro, papéis coreanos artesanais e folhas de ouro.

 

O ferro simboliza a força e a capacidade de romper ciclos intermitentes; o papel artesanal inspira e desenha a sutileza da transformação; o ouro irradia e anuncia tempos renovados e promissores. No encontro com o gesto fotográfico, amalgamam-se peso e leveza, opacidade e brilho, fixidez e suspensão. Os jogos híbridos resultantes dessas combinações geram uma constelação de trabalhos que propõe territórios de contemplação e estabilidade. Nessas territorialidades imaginárias, a artista abre passagem para o espaço sutil que acolhe a existência das coisas. Em sua prática, Luciana concebe a arte como estratégia terapêutica de autoescuta e reorganização interior.

 

Criar é um modo de atravessar a instabilidade do mundo e elaborar uma via paralela de interiorização e conciliação com o próprio devir. Entre Órbitas propõe, assim, um mundo paralelo: nem sempre visível, mas sensivelmente tangível. Um refúgio que não implica fuga, mas reconexão. Como na alquimia, a transformação decisiva não ocorre apenas na matéria, mas naquele que acompanha, com atenção, o mistério de sua mudança." 

 

Eder Chiodetto

curador

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